Nova fronteira da educação financeira está na tecnologia, diz empresária americana

Sara Hughes, da Scaffold Education, fundou uma plataforma de educação on-line inovadora no Brasil e em entrevista ao Valor Investe diz que acredita no poder da tecnologia para ajudar na educação financeira do brasileiro

O envolvimento da empresária americana Sara Hughes com a educação não foi tão rápido, mas foi nessa seara que ela “se encontrou” e decidiu empreender aqui no Brasil. Fundadora da plataforma de tecnologia para educação on-line Scaffold Education, da escola bilingue FourC Bilingual Academy, sediada em Bauru (São Paulo), e idealizadora do Instituto LideraJovem, projeto de formação de líderes em Lençóis Paulista (SP), ela viu no Brasil um mar aberto de oportunidades para empreender na área.

A escolha da palavra ‘scaffold’ para o nome da empresa brasileira de tecnologia idealizada pela empresária não foi mero acaso. Na tradução do inglês para o português, ela significa andaime e é justamente esse conceito que a Scaffold Education aplica para a área de educação.

Diferente de uma escada, que só tem um caminho e degraus bem definidos, o andaime permite que cada um cresça em seu ritmo, a partir do ponto de aprendizado que precisa e siga uma trilha própria, de acordo com seus interesses.

Com clientes grandes, como Natura, Forno de Minas, Algar, Bluefit e FK Partners, para quem desenvolve jornadas de treinamento para funcionários, a plataforma de educação on-line parte do princípio de que cada um está em um patamar de aprendizado em qualquer tópico que seja. É assim também que a empresária acredita que a educação financeira pode ser trabalhada no Brasil, com tecnologia e entendendo as particularidades e nível de noção de cada um, como um andaime mesmo.

Tecnologia é a chave

O primeiro benefício que ela enxerga ao usar – de verdade – tecnologia para personalizar o ensino é conseguir fazer um detalhado e sincero diagnóstico de competências, habilidades e conhecimento dos alunos. Quem nunca desanimou de fazer um curso porque já tinha visto boa parte do conteúdo ou faltava uma base de informação que o curso não oferecia?

“Eu gosto sempre de começar com diagnósticos, é algo que fazemos dentro da plataforma. O diagnóstico é importante para saber qual o nível de cada pessoa, qual seu interesse e realmente identificar o que ela não entende para mapear o que é importante ela aprender. A pessoa não sabe identificar o que ela não sabe ainda e não dá para saber que aquilo vai ajudá-la, se não tem ninguém fazendo as perguntas”, comenta Sara.

Um segundo valor importante que a tecnologia pode agregar à educação e em especial a de educação financeira, segundo ela, é o mapeamento do que falta para cada um aprender dentro daquele tema. Como nem todo mundo está no mesmo nível de aprendizado e aplicação do assunto – e tudo bem – a jornada também deve ser diferente. Essa é uma forma de nivelar o conhecimento, mas respeitando as individualidades dos alunos.

Na prática isso significa que nem todos devem ter as mesmas lições, pelo contrário: a tecnologia permite que o ensino se molde a cada indivíduo e aos seus interesses, bem diferente do que vemos hoje em cursos EAD (educação a distância), que já oferecem conteúdo fixo.

“A tecnologia consegue mapear bem o que está faltando e o que eu posso oferecer para te ajudar. Eu não quero ser forçada a fazer capítulos de um curso que não me interessam. Quando permitimos que as pessoas escolham, tracem uma jornada individualizada e personalizada, que funciona para elas, é muito mais eficaz”, explica a empreendedora. “A tecnologia tem a possibilidade, super importante, de enxergar as diferenças nas pessoas, a habilidade de personalização”, completa.

Se na sala de aula convencional todos leem os mesmos textos, fazem os mesmos exercícios e seguem o mesmo ritmo, a internet possibilita individualizar o aprendizado, mas sem perder os benefícios da sociabilidade. Aí entra outra contribuição da tecnologia. Ao contrário do que muita gente acredita, dá sim para manter laços sociais e de convivência com o grupo de pessoas por meio da internet.

Sara explica que as tecnologias hoje disponíveis no Brasil já permitem usar chats como fóruns de discussão, dividir os participantes em grupos menores de trabalho, propor desafio off-line e aplicar testes e quizz, podendo mesclar teoria e prática, digital e mundo físico. O que conta é o respeito com o momento em que cada um está e o ritmo de avanço. “Os alunos não precisam necessariamente seguirem o caminho sozinho”, diz.

As empresas, claro, estão mais à frente na implementação dessas ferramentas mais modernas do que o ensino formal brasileiro. Prova disso é que serviços como o que a Scaffold oferece são mais valorizados pelo mundo corporativo, que precisa treinar ao mesmo tempo diversos profissionais de diferentes setores, diferentes níveis de conhecimento e habilidades, em diferentes assuntos.

Sara explica que também é mais fácil, com tecnologia, comprovar se alguém assimilou ou não o conteúdo, se aprendeu de fato e reage como é esperado. Ou seja, ela também facilita a checagem e a aplicação de testes.

“Quem não entendeu muito bem, pode estudar novamente no assunto. Dá para mapear quantas vezes foi visto e estudado um mesmo conteúdo (que pode indicar dificuldade), o que errou, quanto tempo demorou em cada lição, ou seja, trabalhar a análise de dados para aperfeiçoar a experiência de cada um”, conta.

Isso sem contar a integração provável com outras tecnologias que ainda engatinham no país, como realidade virtual e aumentada, que vão permitir que os alunos vivenciem o conteúdo, mais do que estudá-lo da forma convencional.

“Que a tecnologia é uma aliada da educação não é novidade; estudos da década de 1970 já falavam disso. Mas hoje é possível criar cenário, situações semi-reais e interdisciplinares, que facilitam o entendimento. Com tecnologia dá para colocar contextos ricos que as pessoas têm mais alternativas e escolhas”, diz Sara.

Ela cita como exemplo o processo de carteira de motorista. Para obtê-lo, é preciso aprender sobre mecânica, leis de trânsito, fazer simulação e prática. Há contexto e interdisciplinaridade.

Mas, a empresária destaca algo primordial: a tecnologia não vai substituir o professor. Assim como os robôs precisam dos programadores para explicar a eles o que devem fazer, os professores e instrutores continuam sendo importantes no processo educacional. Além disso, o olho humano, empático e de quem percebe o que cada aluno precisa nunca sairá de moda. As ferramentas digitais, contudo, podem ajudar muito a melhorar o ensino e o aprendizado, sob orientação de alguém.

Apesar de ter poucos clientes na Scaffold especificamente na área financeira – a escola de treinamento para certificações do mercado financeiro FK Partners é um deles, Sara é pessoalmente envolvida com o tema de educação financeira em outras frentes e sonha em desenvolver algo mais voltado para a temática.

Para entender sua relação com o tema e porque ela acredita no poder da tecnologia para formarmos brasileiros mais educados financeiramente, vale conhecer um pouco de sua história até chegar aqui.

Do Vale do Silício a Bauru

Nascida no Vale do Silício, no coração da indústria de softwares e aplicativos dos EUA, sua infância foi dentro dos computadores. Com o pai programador de satélites e a mãe trabalhando na área de educação, os dois temas – tecnologia e ensino – sempre estiveram na sua mente. Mas antes de abrir seu próprio negócio na área, ela trabalhou por alguns anos na HP e no Banco da Colômbia, nos Estados Unidos e na Colômbia.

Formada em Economia Empresarial (Business Economics) com ênfase em relações internacionais pela Universidade da Califórnia, em Santa Barbara (UCSB), e MBA pela IESE School of Business, em Barcelona, na Espanha, Sara conheceu o atual marido, brasileiro, durante seu curso na Europa. Como a família dele precisava que ele tocasse por um tempo os negócios próprios, o casal se mudou para o interior de São Paulo em 1996.

Por sua experiência, ela também se envolveu nos negócios do marido, o Grupo Lwart, que hoje atua nas áreas de lubrificantes, refino, material para construção civil e produção de celulose. Isso quando o Plano Real estava ainda em teste e havia muitas dúvidas se a sombra da hiperinflação teria ido embora de vez, que ela percebeu o quanto o brasileiro precisava de educação financeira. Até então, falar em orçamento doméstico e planejamento financeiro era praticamente impossível.

Comecei a ter problemas com os colaboradores endividados, que apesar de não terem nem cartão de crédito, tinham crediário em muitas lojas. Sem saber se o Plano Real ia durar, as pessoas torravam o dinheiro porque não sabiam como seria o dia seguinte”, conta a executiva.

Ela lembra que um símbolo de investimento naquela época aqui no Brasil era comprar um freezer, onde podiam armazenar comida e não depender das imprevisíveis oscilações de preços dos alimentos.

A vontade de ajudar as pessoas para que elas tivessem uma melhor qualidade de vida, a partir da boa gestão de seu dinheiro, fez ela contratar um profissional para ajudar os colaboradores e seus familiares a se organizar.

Em paralelo, como diretora de Planejamento estratégico do Lwart, ela percebeu outra dificuldade: contratar gente com curso superior e mesmo ensino médio completo. Foi aí que começou a desenhar junto com o Senai local cursos técnicos voltados a automação, tecnologia e química.

Mais tarde, em 2002, ela ajudaria a criar o Instituto LideraJovem, uma organização sem fins lucrativos que desenvolve atividades e projetos para formação de adolescentes e jovens. Uma das frentes é justamente o letramento financeiro. O tema de educação financeira também é uma disciplina de sua escola FourC.

“Os alunos adolescentes são orientados, por exemplo, a montar um orçamento para o período da faculdade, mapear quais os gastos na casa deles todo mês para começar a ampliar o raciocínio sobre despesas que eles têm e quanto custará se forem morar sozinhos depois de formados. É legal que eles começam a pensar também em alternativas para as atividades, para conseguir gastar menos”, explica Sara. Ainda são poucos, infelizmente, os pais que falam de dinheiro com os filhos.

Para os jovens que estudam em escolas públicas, o raciocínio é parecido. Eles avaliam, por exemplo, formas de conseguir renda extra para comprar o que querem. O assunto – finanças – é abordado dentro das aulas de debates e negociação que os jovens têm no Instituto LideraJovem.

Na Scaffold, ela pode juntar as pontas – a educação e a tecnologia – em prol do ensino mais personalizado.

Fonte: https://valorinveste.globo.com/educacao-financeira/noticia/2020/12/31/nova-fronteira-da-educacao-financeira-esta-na-tecnologia-diz-empresaria-americana.ghtml

Escrito por: Naiara Bertão, Valor Investe – São Paulo

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